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Trabalho digno na prática: emprego, empreendedorismo informal e a potência da economia do cuidado

O que significa, de fato, ter um trabalho digno? Para muitas pessoas no Brasil, essa ainda é uma realidade distante. Apesar da recente redução na taxa de desemprego do país, que chegou a 7% no trimestre encerrado em abril de 2025, segundo o IBGE, o índice de informalidade segue alto, atingindo mais de 37% das pessoas ocupadas no Brasil. Isso significa que 39,27 milhões de pessoas ainda trabalham sem carteira assinada, sem estabilidade e sem acesso aos direitos garantidos pela legislação trabalhista.

Em territórios vulnerabilizados, onde as desigualdades de gênero, raça e acesso se cruzam, a informalidade muitas vezes não é uma escolha, é a única alternativa disponível. Mas também é importante reconhecer que trabalho digno não se resume à CLT: iniciativas de empreendedorismo individual, como o MEI (Microempreendedor Individual), podem representar caminhos reais de autonomia e proteção social, desde que construídas com acesso à informação, intencionalidade e estrutura mínima de apoio.

E há outra faceta essencial: a economia do cuidado. No Brasil, cerca de 25 milhões de pessoas trabalham com cuidados remunerados, o equivalente a um quarto da força de trabalho do país, muitas vezes em condições precárias, enquanto um número ainda maior se dedica ao cuidado não remunerado dentro de casa. Estudos como o do Instituto Brasileiro de Economia da FGV IBRE (2023), apontam que esse trabalho invisível representaria até 13% do PIB nacional, se fosse reconhecido economicamente. Em média, mulheres dedicam mais de 21 horas por semana a essas atividades, contra 11 horas dos homens.

Muitas cuidadoras informais recorrem ao empreendedorismo como estratégia de geração de renda, especialmente quando não dispõem de rede de apoio para assumir um emprego formal.

O desafio que colocamos é claro: não basta buscar carteira assinada, temos que promover condições dignas de trabalho em vários formatos, com acesso a direitos, estabilidade mínima, renda justa e perspectiva de crescimento. É exatamente nesse horizonte que atuamos com nossos projetos.

Do discurso à prática

Acreditamos que inclusão socioprodutiva, geração de renda e autonomia só são possíveis quando há acesso a oportunidades de trabalho, e também disposição das pessoas em construírem esse caminho. Não basta oferecer formação técnica. É preciso criar pontes com o mercado, fornecer estrutura de apoio e promover reconhecimento social.

É por isso que desenvolvemos os projetos 360°: iniciativas que unem formação, acompanhamento e conexão com o mercado, com base em escuta ativa e contínua dos territórios. Mas esse processo só ganha força quando é construído em conjunto. O Instituto cria caminhos, e as pessoas que participam, com suas histórias e habilidades, seguem na trilha com autonomia e protagonismo.

Atualmente, três iniciativas já estão em curso neste modelo:

O Sabores do Coletivo forma prioritariamente mulheres vulnerabilizadas socioeconomicamente para atuarem na gastronomia para eventos. Além das técnicas culinárias, as participantes aprendem sobre produção de cardápios, confeitaria, eventos sustentáveis, drinks, aproveitamento total dos alimentos, entre outros conteúdos.

Essa formação foi pensada de forma 360º para gerar um impacto positivo e duradouro na vida das pessoas, integrando:

  • Linguagem customizada, pensando em acolher da melhor forma o público periférico, público-alvo do curso;
  • Aulas de gastronomia para eventos, como um novo passo para a autonomia financeira;
  • Cozinhas mais sustentáveis, focadas no aproveitamento integral dos alimentos;
  • Conexão com oportunidades reais, seja por meio de estágio no restaurante Da Quebrada, em eventos abertos ao público, ou mesmo em atividades para o mundo corporativo, como os cafés que já estão sendo contratados pela Cury Construtora, nossa mantenedora.

Assim, o aprendizado se transforma em oportunidade real de geração de renda. É a dignidade que nasce do cuidado com o outro, consigo mesma e com o território, um exemplo claro da força da economia do cuidado.

O projeto é realizado em parceria com o Gastronomia Periférica, organização que compartilha do compromisso com a inclusão produtiva e a valorização das culturas alimentares dos territórios periféricos.

O Ciclo ReFeito oferece aulas gratuitas de costura e modelagem, prioritariamente para mulheres vulnerabilizadas, na região Gamboa, no Rio de Janeiro. A iniciativa foi pensada a partir de uma necessidade real da Cury Construtora, mantenedora do Instituto Cury, que é a destinação correta dos uniformes usados nos canteiros de obra. Mas, muito mais do que destinar de forma correta, o projeto tem como objetivo a ressignificação desses resíduos têxteis. O que era uniforme transforma-se em oportunidade de geração de trabalho e renda.

A proposta do projeto é que, ao final da formação, essas mulheres possam formar um coletivo de costura e desenvolver produtos com design atrativo, alta qualidade e com muita história a ser contada. Mais do que upcycling, o Ciclo ReFeito representa oportunidade de reconhecimento, autonomia e reconstrução.

A iniciativa é realizada em parceria com o Instituto Entre o Céu e a Favela, que atua com crianças, jovens e mulheres, potencializando o seu protagonismo por meio de cursos para qualificação profissional e oficinas de esporte e cultura.

O ConstruDivas é um projeto pioneiro que forma mulheres para atuarem na construção civil, um setor ainda majoritariamente masculino, mas com muito espaço para ser desbravado.

O curso foi pensado a partir do mapeamento de cargos atrativos para o público feminino, que está sempre atento aos detalhes e com foco em entregas de qualidade. Mas sabíamos que conectá-las ao mercado formal de trabalho era um passo imprescindível para o sucesso do projeto. Para atingirmos esse objetivo, foi realizada uma escuta ativa com diversos departamentos da Cury Construtora, principalmente a Engenharia e o RH, buscando oportunidades na empresa.

Durante o curso, elas participaram de aulas práticas de hidráulica, elétrica, pintura e assentamento de pisos, num formato imersivo, e com visita técnica à obra para entender a dinâmica de um canteiro. Agora, seguem com prioridade no processo de recrutamento e seleção da Cury Construtora e com apoio contínuo em sua jornada.

Além da formação prática, o projeto envolve também a preparação das equipes e dos ambientes de trabalho, com apoio de madrinhas e padrinhos que acompanham de perto a jornada das novas profissionais nos canteiros de obra. Porque garantir trabalho digno também é garantir acolhimento e respeito no cotidiano.

O projeto é realizado em parceria com o Instituto Mulher em Construção, organização especializada na formação de mulheres para o setor da construção civil.

Trabalho digno não se faz sozinho

Cada uma dessas iniciativas parte de uma convicção: não estamos formando pessoas para uma vaga específica, estamos formando caminhos de autonomia e autoestima. E isso só é possível com parcerias consistentes e com a escuta real dos territórios.

De acordo com o Mapa das Organizações da Sociedade Civil, o terceiro setor representa 4,27% do PIB brasileiro e gera mais de 4,7 milhões de empregos. Para efeito de comparação, esse índice é superior ao da indústria têxtil (1,4%) e próximo ao do setor de construção civil (4,5%), segundo dados do IBGE.

O crescimento de 15% no número de organizações em São Paulo e no Rio de Janeiro nos últimos cinco anos mostra que há uma rede potente atuando pela inclusão, pelo acesso e pela redução das desigualdades sociais.

Mas ainda é preciso que mais empresas, institutos, governos e políticas públicas eficazes se juntem a esse esforço, que não pode ser ignorado diante de tamanha representatividade econômica e social. Investir em inclusão socioprodutiva é também fortalecer o desenvolvimento local, gerar renda e combater desigualdades de forma estruturante. 

O trabalho digno começa com o reconhecimento de que todas as pessoas têm o direito de viver com segurança, estabilidade e pertencimento. Seguimos comprometidos com a construção desses caminhos, e queremos inspirar mais organizações a fazerem o mesmo.

Porque garantir renda é importante. Mas garantir respeito e possibilidade de um presente mais justo é essencial.

Acompanhe nossas redes para conhecer de perto os projetos e as histórias de quem já está fazendo isso acontecer.